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Antigos estaleiros de Viana mataram a fome a muita gente da cidade

Avelino Azevedo, antigo trabalhador dos extintos Estaleiros Navais de Viana do Castelo (ENVC), hoje não tem dúvidas que uma “das coisas boas” da empresa pública de construção naval foi ter “matado a fome a muita gente”.

“Só ter a refeição por dia já é bom. Diga isso”, apelou à Lusa o homem que entrou na empresa aos 16 anos e dedicou 46 ao setor da chaparia, acrescentando que, na altura, a empresa estatal “matou a fome de muita gente”.

Os Estaleiros Navais de Viana do Castelo foram criados em 3 de junho de 1944, no âmbito do programa do Governo para a modernização da frota de pesca do largo.

Foram formalmente extintos em março de 2018, mas encontravam-se em processo de extinção desde 10 de janeiro de 2014, data da assinatura, entre o Governo PSD/CDS-PP de Passos Coelho e o grupo privado Martifer, do contrato de subconcessão dos estaleiros navais até 2031, por uma renda anual de 415 mil euros.

Segundo Avelino Azevedo, que almoçava no refeitório dos estaleiros, havia “muita gente a ir buscar comida, ao meio-dia, e alguns até roubavam carne”.

“Eu via as pessoas à porta dos estaleiros com a marmita para levarem a sopinha. Pessoas que não trabalhavam na empresa. Os estaleiros deram de comer a muita gente da cidade, da ribeira e não só”, especificou.

Avelino Azevedo, hoje com 68 anos e a viver num lar para idosos da cidade, vive do apoio do fundo de pensões dos extintos estaleiros navais, cerca de “200 e poucos euros”, e tem o apoio da filha e do genro.

“Vivo de subsídios como qualquer português. Não recebi um tostão dos estaleiros porque saí antes nas negociações das indemnizações”, afirmou.

Quando fechou portas, enquanto ENVC, em abril de 2014, depois de quase 70 anos de atividade, a empresa pública empregava mais de 600 trabalhadores. O plano de rescisões amigáveis a que os trabalhadores foram convidados a aderir custou ao Estado 30,1 milhões de euros.

Suportado com recursos públicos, incluiu indemnizações individuais entre os 6.000 e os 200 mil euros, além do acesso ao subsídio de desemprego e reforma.

Avelino Azevedo foi um desses casos.

No dia a dia, Avelino Azevedo garante que não pensa nos dias de trabalho nos estaleiros.

“Expulsei tudo”, reforçou, mas, na conversa com a agência Lusa, lembrou os navios mais bonitos construídos para a então União Soviética e para o Japão.
“Eram encomendas grandes, cerca de 40 navios com tecnologia avançada. Mas os melhores e maiores foram os que foram os navios-tanques construídos para a Galp”, disse.

Nessa altura, “1974/1975, os extintos ENVC empregavam cerca de 1.000 a 1.200 trabalhadores diretos e havia poucos subempreiteiros”.

A partir de “1976/1977 a construção naval começou a decair e a reduzir o número de trabalhadores dos ex-ENVC, mantendo o efetivo entre os 600 e os 700, conforme das necessidades”.

“Entrou muita mão de obra subcontratada. Havia muitos trabalhadores que criaram as suas próprias empresas à custa dos estaleiros. Trabalhavam nos estaleiros e organizavam as empresas cá fora”, apontou.

Avelino diz que esteve “sempre solidário” com os colegas que lutaram contra a subconcessão, mas preferiu “desviar-se”.

Acredita que os ENVC podiam ter o volume de trabalho da West Sea, mas seriam precisas outras políticas e não só.

“Os estaleiros tiveram um problema. Nunca tiveram muita vocação para a reparação e a reparação dá muito dinheiro”, sublinhou.

Para o antigo trabalhador, o que aconteceu foi a força da política geral.

“Desviei-me completamente. Os estaleiros transformaram-se na casa da tristeza. Há iniciativas que se realizam sobre o assunto, mas não participo”, disse.

Segundo os últimos números avançados pela Martifer, que detém a West Sea, a empresa “afirma-se atualmente como uma das maiores referências da indústria naval portuguesa e um dos principais motores de emprego industrial no concelho de Viana do Castelo”, com cerca de mil trabalhadores.

Foto:  Gonçalo Fagundes Meira