O presidente da Junta de Freguesia de Lanheses vai reunir-se na quarta-feira com a administração da empresa Recial para esclarecer as causas do derrame de óleo no rego da Peitilha, um afluente do rio Lima, informou esta segunda-feira Filipe Rocha.
Em declarações à agência Lusa, Filipe Rocha referiu que o encontro foi solicitado pela empresa de valorização de alumínios, na sequência do “descontentamento” manifestado pela autarquia, face ao “maior acidente” ambiental de que há memória na freguesia.
Em causa a poluição com “1,5 quilómetros de extensão, entre o ponto do derrame e a foz do rego da Peitilha, que desagua no rio Lima”, atingindo a linha de água uma “camada espessa de óleo”.
Segundo o presidente da Junta de Freguesia, a reunião, que decorrerá às 16h00, servirá ainda para “analisar medidas de mitigação e de segurança futura a tomar pela empresa”.
“Vamos ouvir o que têm para nos dizer e vamos colocar as nossas preocupações em cima da mesa. Não invalida que se apurem as responsabilidades e que se avalie a atividade da fábrica no contexto do parque empresarial de Lanheses. A Câmara de Viana do Castelo tem todo interesse também. Nesta reunião estará presente alguém do Ambiente”, explicou.
A Junta de Freguesia “vai solicitar reuniões à Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e à Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N), “entidades a quem compete a fiscalização” da atividade daquela empresa.
“Esta unidade foi sujeita a Avaliação de Impacto Ambiental (AIA) e está obrigada, por força disso, a apresentar os dados da monitorização e da laboração. Nós acreditamos que esse trabalho está a ser feito e que não há nada de anormal”, referiu Filipe Rocha.
Contactada pela Lusa, a Agência Portuguesa do Ambiente esclareceu tratar-se de “uma fuga na tubagem de fuel, ocorrida na sexta-feira”.
“Hoje estão a reparar a fuga. A contaminação acabou por afetar uma linha de água próxima. No âmbito da Lei da Água, já comunicaram o incidente à Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N), Inspeção-Geral da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território (IGAMAOT) e APA”, refere a nota.
Segundo o autarca a empresa “sofreu, em 2017, uma grande incêndio, que destruiu parte da cobertura e a proteção lateral da fábrica”. “A escória que sai dos fornos, arrefecia a céu aberto e encostada à parede da unidade. Num dia de mais calor, o que aconteceu é que aquele material incendiou e a fábrica esteve parada durante algum tempo até poder voltar a laborar”, especificou.
Em abril de 2021, outro incêndio atingiu uma chaminé da fábrica.
“Depois de tudo isto, e face ao derrame de óleo que encerra alguma falta de rigor e negligência, começo a duvidar que, de facto, haja condições de segurança.”, destacou.
Filipe Rocha acrescentou que, em 2008, avisou que “dada a natureza da atividade industrial e a proximidade à população, a fábrica podia e iria trazer problemas”.
Até finais de maio de 2008, a fábrica laborou numa área residencial em Palmeira, Braga, onde era fortemente contestada pela população, pelo seu carácter alegadamente poluente, acabando por fechar portas, deixando 17 trabalhadores sem emprego.
A instalação em Lanheses também não foi pacífica, tendo em 2006 a Assembleia Municipal de Viana do Castelo aprovado uma moção em que apelava à câmara para dar parecer desfavorável ao projeto, em defesa da saúde pública e do meio ambiente.
Na altura, o presidente da câmara, o socialista Defensor Moura, admitiu que a fábrica poderia ser instalada em Lanheses “se funcionar corretamente, como mandam as normas”.
A população de Lanheses apelou sempre ao chumbo do projeto, sublinhando que é a qualidade de vida da freguesia e das localidades vizinhas que está em causa.
Em junho de 2008, aquando da instalação da fábrica de reciclagem de alumínio, no parque empresarial de Lanheses, a administração garantiu que os receios de poluição manifestados pela população daquela freguesia “não têm qualquer fundamento”.
“A Recial é a única empresa em Portugal deste ramo com licenciamento ambiental, que só se obtém depois de passar num crivo muito apertado”, referiu, na altura à Lusa, o acionista maioritário da empresa.
Segundo Bernardo Macedo “as populações podem estar descansadas dado que a empresa cumpre os requisitos ambientais exigidos em alguns dos mais desenvolvidos países da Europa”.










