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Romaria d’ Agonia não se festeja este ano nas ruas pela primeira vez em mais de 200 anos

Viana do Castelo não vai festejar nas ruas, pela primeira vez em 248 anos, os números emblemáticos da Romaria d’Agonia devido à “dimensão das restrições impostas pela pandemia de covid-19″, disse hoje à Lusa o presidente da Câmara.

“Com a dimensão das restrições com que nos confrontamos este ano, é de facto, a primeira vez que tal se passa. Desde 1772, com programas mais ricos, outros mais modestos, a Romaria cumpriu-se sempre”, afirmou José Maria Costa.

Em 2020, por causa do surto do novo coronavírus, os principais números dos cinco dias da Romaria d’Agonia, entre 19 e 23 de agosto, vão ser celebrados em formato digital, através da rádio, da televisão e de meios audiovisuais e tecnológicos.

Apenas o dia 20 de agosto, dedicado à padroeira dos homens do mar, será celebrado presencialmente, na igreja de Nossa Senhora d’Agonia, mas com limitações que serão determinadas por normas que serão emanadas, no final do mês, pelas autoridades de saúde e pela Confederação Episcopal Portuguesa relativamente às celebrações litúrgicas.

Segundo o autarca socialista, este novo formato em que se vai realizar a festa é um “momento histórico inédito” na Romaria da d’Agonia desde 1772.

José Maria Costa recordou os estudos dos investigadores Moisés Martins, Albertino Gonçalves e Helena Pires, publicados na obra “Romaria da Senhora d’Agonia – Vida e Memória da cidade de Viana do Castelo, editada em 2000 pelo Grupo Desportivo e Cultural dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, nos quais não encontra nenhum registo de que a romaria não se tivesse celebrado nas ruas.

“No ano de 1772, requeria-se ao rei D. José que na mesma ocasião da festividade se fizesse uma feira geral de três dias no campo do Castelo. Em resposta, uma Provisão régia de 15 de julho concedeu aos vianenses a Feira Geral Franca em 18,19 e 20 de agosto”, lê-se naquela obra.

José Maria Costa apontou ainda a investigação, com mais de 60 páginas que integrou, em 2013, a candidatura das Festas da Agonia à classificação de Interesse Turístico, processo conduzido por Francisco Sampaio que, durante mais de duas décadas, liderou a extinta Região de Turismo do Alto Minho (RTAM) sendo considerado, atualmente, um dos maiores especialistas da história da festa secular da capital do Alto Minho.

De acordo com os dados históricos apontados na investigação realizada por Francisco Sampaio, a Romaria de Nossa Senhora d’Agonia é considerada uma das principais festividades do país, remontando as suas origens a uma via-sacra referenciada em documentos do século XV. Nesse local foi construída, em 1674, a Capela do Bom Jesus do Santo Sepulcro.

A devoção surgiu em 1751, quando a imagem da santa entrou na capela, o que fez aumentar de forma considerável o número de promessas e ofertas.
A igreja dedicada à santa começou a ser construída em 1774 e, nove anos mais tarde, a Sagrada Congregação dos Ritos concedeu licença para que todos os anos pudesse ser celebrada naquele local, a 20 de agosto, uma missa solene, dia que ainda hoje é feriado municipal.

Nos moldes próximos dos atuais, a festa surgiu em 1823 e o primeiro desfile do traje surgiu em 1906. Dois anos depois o programa incluiu, pela primeira vez, a parada agrícola, antecessora do atual cortejo etnográfico.

Em 1968 realizou-se a primeira Procissão ao Mar, atualmente um dos números mais emblemáticos, com centenas de embarcações de pesca a levarem a imagem da padroeira ao mar e ao rio.

O desfile da mordomia, com todos os trajes, certificados desde 2016, é outro dos números únicos da romaria que, na edição 2019, segundo estimativas avançadas na altura pela VianaFestas, entidade que organiza as festas, recebeu “mais de 1,2 milhões de pessoas”.

O desfile da mordomia é o momento em que os diferentes trajes das freguesias de Viana se encontram e mostram, de uma só vez à cidade. Trata-se de uma tradição cada vez mais enraizada entre as jovens e mulheres de Viana do Castelo e que junta várias gerações.

Desde 2014, também as mulheres da ribeira de Viana do Castelo, com os seus trajes de varina, participam neste desfile colorido pelos vermelhos, verdes e amarelos dos típicos e garridos trajes das diferentes freguesias.

Não faltam também os fatos de noiva mais sóbrios, de cor preta. Neste número algumas das mulheres chegam a carregar dezenas de quilos de ouro, reunindo as peças de famílias e amigos num único peito, simbolizando a “chieira” (termo minhoto que significa orgulho) e outrora o poder financeiro das famílias.