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Clube Náutico de Ponte de Lima assume perda de canoístas na formação

O Clube Náutico de Ponte de Lima, dedicado à canoagem, reconhece a perda de atletas nos escalões de formação, devido aos obstáculos à prática desportiva colocados pela pandemia de Covid-19.

Com cerca de 150 canoístas inscritos, o clube onde Fernando Pimenta se iniciou, em 2001, antes de conquistar a medalha de prata nos Jogos Olímpicos de 2012, com Emanuel Silva, encerrou no primeiro confinamento, regressou à atividade em maio e teve de reformular a atividade no confinamento em vigor, perdendo atletas pelo caminho, admite à Lusa o presidente, João Carlos Gonçalves.

“No final, feito o balanço, isto vai redundar na perda de alguns atletas. Esperamos é que eles regressem. De qualquer maneira, o confinamento de março [de 2020] deixou muita gente em casa, que não regressou em maio. Neste ano, desses que não regressaram em maio, regressaram alguns, mas não todos”, salienta.

Como a canoagem se enquadra na autorização para “treino de desportos individuais ao ar livre”, segundo o decreto-lei da Presidência do Conselho de Ministros, de 14 de janeiro, os atletas podem manter os treinos, mas sozinhos, pelo que o Clube Náutico de Ponte de Lima apenas mantém aberto o hangar para cada atleta pegar na canoa ou no caiaque, esclarece o dirigente.

Alguns canoístas levaram as embarcações para casa em veículos equipados para esse fim, bem como “material de ginásio”, mas os atletas da formação estão com mais dificuldades para acesso aos treinos, após o encerramento das escolas, em curso desde 22 de janeiro, ter levado o clube a cancelar o transporte para o centro de canoagem, junto ao rio Lima.

“A partir do momento em que fecham as escolas, há muitos alunos que deixam de vir ao clube, porque vinham das escolas, no final treinavam e depois regressavam às suas casas. O clube cancelou também tudo o que são transportes. Só podem vir os atletas cujos pais os possam trazer ou que tenham os próprios meios de transporte”, observa o responsável.

Presidente do clube limiano há quatro anos, João Carlos Gonçalves observa ainda que a paragem das férias desportivas no verão de 2020, período no qual alunos do terceiro ao nono ano de escolaridade “contactavam com o rio na perspetiva desportiva e ambiental”, é uma “perda enorme”, até porque a iniciativa já atraiu atletas para o clube, nomeadamente Fernando Pimenta.

Forçado a diminuir em cerca de 30% um orçamento anual que costuma rondar os 220 mil euros, o dirigente admite que o novo coronavírus foi uma “bomba que caiu sobre os clubes”, realçando também que a “falta de uma atividade física regular” é uma “falha no crescimento harmonioso de qualquer criança e jovem”, com “impacto” no seu futuro.

Desde que a pandemia atingiu Portugal, em março de 2020, o treinador Joaquim Cruz está impedido de trabalhar com os atletas no rio, limitando-se a enviar planos de treino e a dar instruções e conselhos através do telefone ou da plataforma de videoconferência Zoom.

“Não ministramos treinos, nem damos um apoio direto ao atleta. Um treinador à distância não é um treinador. É um amigo com quem se podem falar algumas questões. Mas as questões técnicas perdem-se muito”, explica o técnico responsável pelos atletas de formação acima dos 14 anos.

Esse plano de treinos, acrescenta, visa “minimizar as perdas físicas” antes do eventual regresso à normalidade, que vão necessariamente acontecer, já que a canoagem exige 42 a 44 semanas, por ano, de “treino afincado”.

Joaquim Cruz considera também premente a realização das provas de juniores em 2021 e em 2022, para garantir que alguns dos canoístas entre os 16 e os 18 anos não percam o “estatuto de alto rendimento”, distinção válida por dois anos, com influência no acesso ao ensino superior ou até a algum patrocínio para uma carreira de alta competição.

“Temos atletas que conseguiram esses apuramentos a quem foi inibida a possibilidade de ter um estatuto de alto rendimento no acesso à faculdade. Um jovem que se dedica cinco ou seis anos, com um objetivo firme, pode ficar a pensar que treinou tanto e teve tão pouco”, avisa.

Aos 16 anos, Fernando Costa cumpre o primeiro ano de júnior, depois de se ter cotado como um dos três melhores canoístas nacionais nos cadetes, e espera que o mundial do seu escalão se realize neste ano ou no próximo para manter a “oportunidade para a vaga no ensino superior”.

Incentivado pelo pai, remador há 35 anos, Fernando Costa levou a embarcação para casa no ano passado e tem combinado o treino no rio com o trabalho de ginásio, afirmando-se convicto numa “boa prestação” caso tivesse de competir agora.

Cadete de 14 anos, João Sousa viu-se impedido de treinar na embarcação no início da pandemia, mas agora consegue deslocar-se regularmente à sede do clube para treinar, enquanto Francisca Lopes, cadete de 15, só treina no rio ao fim de semana, após ter ficado sem o transporte que lhe garantia o acesso ao hangar.

“Vou no fim de semana, quando os meus pais estão em casa. Não estou a treinar tão bem como nos anos anteriores. Claro que isto nos afeta. A longo prazo, considero que seja recuperável, mas claro que se nota a diferença no rendimento”, reconhece.