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História de devoção “arrepiante” à Senhora d’Agonia contada através imagens

A história “arrepiante” da devoção da ribeira de Viana do Castelo à Senhora d’Agonia, “narrada” pelas fotografias de Rui Carvalho quer transmitir, a partir de sábado, a “carga emocional” de um dos momentos “mais fortes” das festas da cidade.

Viana do Castelo vai entrar em agosto, pela primeira vez em 248 anos, sem viver nas ruas a festa que nasceu para honrar a “Mater”, padroeira dos pescadores, mas a “explosão” de imagens que se vão espalhar pela cidade não vai deixar esquecer que é mês de romaria e de fazer sentir uma devoção “sem igual”.

A veneração à padroeira dos homens do mar, que se cumpre há mais de meio século, “entranha-se mesmo que não se seja da Ribeira”. Para Rui Carvalho, que fotografa a romaria da capital do Alto Minho desde 2004, é “um dos momentos mais fortes e intensos”. 

Neto e filho de fotógrafos da cidade, Rui, de 43 anos, assina a “Mater”. A exposição de autor abre ao público, no sábado, com uma seleção de trinta imagens, que retratam um “olhar” que se deixou “envolver” nas festas e “tomar” pelo “carinho” das pessoas pela santa.

“Há várias imagens que passam a carga emocional presente naquele momento [procissão ao mar]. É um momento muito pessoal. Há ali toda uma história de vida por trás. De pessoas que perderam familiares no mar, de quando os barcos querem entrar na barra e a coisa corre mal, é para a santa que se viram. Isso sente-se na imagem”, contou hoje à agência Lusa Rui Carvalho, licenciado em ‘Design’ de Comunicação pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto.

O culto à Senhora d’Agonia tem a sua primeira referência escrita em 1744. Já a procissão ao rio e ao mar, em sua honra, cumpre-se sempre a 20 de agosto, desde 1968.

Este ano, por causa da pandemia causada pelo novo coronavírus, será celebrado presencialmente na igreja de Nossa Senhora d’Agonia, mas com limitações.

A “narrativa” construída pelas imagens de Rui conta uma história de “envolvência” da ribeira “no antes, durante e depois” da procissão ao mar, desde “a preparação dos tapetes floridos, nas semanas que antecedem a romaria, à noite dos tapetes, à procissão ao mar, ao regresso do mar, com a passagem do andor pelas ruas da ribeira no regresso à igreja”.

“Há uma relação entre a ribeira e a Santa, e a Santa e a ribeira, que é muito especial. Em certas famílias nota-se que é muito sentido. Devido até, dia-a-dia, ao andarem no mar, às dificuldades que sentem. Não é propriamente o dia da festa que é importante para a ribeira, é o ano todo. Se calhar, o dia da festa é quando as emoções vêm a flor da pele”, referiu.

Daquela relação nasceu o nome da exposição: “Mater porque é a mãe que cuida dos pescadores, daquela comunidade e dos vianenses”. A mostra é inaugurada no sábado, pelas 17:00, no âmbito do projeto “Pulsar Viana”, promovida no centro comercial da cidade.

“Nas noites dos tapetes, a dona Celeste da Rua Monsenhor Daniel Machado não me perdoa se não for lá comer uma fatia de bolo de chocolate. Passei a fazer parte da vida daquelas pessoas. Há uma empatia muito grande e sinto, agora, com outra clareza a devoção da ribeira à Senhora”.

Além da mostra “Mater”, Rui Carvalho assina as 25 fotografias da exposição “Sentir os tapetes para a Senhora Passar” que vai abrir ao público, também no sábado, a bordo do navio-hospital Gil Eannes.

Ainda a partir de sábado, em seis locais da cidade vão ser expostas 174 fotografias dos números mais emblemáticos das festas, todas de Rui Carvalho que, em 1993, iniciou uma colaboração ininterrupta com a comissão de festas da Senhora d’ Agonia, nas áreas da conceção, ‘design’, imagem e comunicação. É ainda responsável, desde 2015, pelo registo fotográfico da romaria.

“Há uma explosão de fotografias para que as pessoas sintam as festas, apesar de ser um ano anormal”, disse, referindo-se à pandemia de covid-19 que levou ao cancelamento do formato normal da romaria.

Os painéis com as 170 fotografias vão ser colocados nas ruas onde decorrem os principais pontos da romaria e que através de códigos de barras bidimensionais (‘QR Code’) neles instalados, os visitantes podem aceder aos conteúdos multimédia sobre os quadros emblemáticos que, habitualmente, se realizam naquele local e que estarão disponíveis numa página na Internet criada para o efeito.