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Parada Do Monte

Cerco sanitário mostra a Parada do Monte que nem o “cantinho” está salvo

O cerco sanitário em torno da aldeia de Parada do Monte despertou os 370 habitantes para uma “realidade” que não imaginavam ser possível, por viverem num “cantinho” do concelho de Melgaço que julgavam “guardado” da covid-19.

O “pesadelo” começou na segunda-feira, com a confirmação de um casal de idosos infetados com o vírus da covid-19 e transformou-se “numa coisa do outro mundo” com o terceiro caso e a consequente imposição do cerco sanitário decidido na quarta-feira pela Câmara de Melgaço, no distrito de Viana do Castelo, para conter a propagação da doença.

“Ninguém imaginava uma coisa destas. Isto é uma coisa do outro mundo. E no concelho de Melgaço, infelizmente somos nós os primeiros”, desabada Helena Barreiros.

Aos 48 anos, dona de uma mercearia da aldeia, “nunca” imaginou “estar a viver um pesadelo” que sempre pensou ser impensável em Parada do Monte.

“Aqui nunca na vida vai chegar, pensava eu. Afinal de contas chegou mais depressa do que o que nós imaginávamos. Pensávamos que estávamos num cantinho, aqui guardados. Mas chega a todo o mundo, e não é por estamos mais desviados dos centros que somos poupados”, afirmou.

No segundo dia em cerco sanitário, que a população “assustada” e com “medo” caiu “numa realidade” que, alertou Helena, deve “servir de lição a muitas aldeias que agora têm de ter o máximo de cuidado”.

“Estamos assustados, temos medo, mas estamos a cumprir. Isto vai a todo o lado, infelizmente”, referiu.

Numa aldeia “com mais de 50% de idosos”, os 88 anos de Prazeres Esteves colocam-na no grupo de risco. Longe dos dois filhos, ambos emigrantes em França, e dos cinco netos, Prazeres sente-se “sozinha e assustada”, “fechada na casinha” onde criou a família, “sem a ajuda” do marido, que “morreu cedo”.

“Sinto-me sozinha, mas que remédio eu tenho. Claro que estou assustada. Estou bastante assustada porque a gente tem medo, não é? Porque o mundo está tão mal. Ai Jesus senhor”, lamentou.

Além dos telefonemas do presidente da União de Freguesias de Parada do Monte e Cubalhão, Prazeres fala com a família que “não deixam passar para cá”.

“Vou falando com a família toda. Ainda de manhã falei com uma neta. Telefonam-me todos os dias, coitadinhos. Gostam muito de mim. Queriam ter a avó, mas agora não podemos ir lá, não os deixam passar. É um problema”, desabafou a idosa.

Não tem problemas de saúde, “por ora”, não lhe falta comida, porque tem a “arca cheia”, e remédios estão garantidos.

No terreno, “atento ao que faz falta”, anda um grupo de voluntários criado pelo autarca Ricardo Alves, pelo padre e alguns paroquianos para “cuidar e ajudar os velhotes, com a mercearia e medicamentos”.

Desde quarta-feira que o presidente da Junta faz rondas pelos mais de 27 quilómetros quadrados da aldeia para se certificar que “está tudo a correr bem”.

“Neste momento, estão todos a cumprir. Parece uma freguesia pós-apocalipse. Está tudo com medo. As pessoas estão assustadas, mas estão a cumprir para conter o vírus”, referiu.

Hoje, durante a “volta” pela aldeia, Ricardo Alves parou para lançar um olhar sobre os campos da aldeia e sentiu “um arrepio”.

“É uma freguesia onde as pessoas ainda vivem muito da agricultura e estamos no tempo forte desta atividade. Agora vê-se tudo parado, tudo com medo de sair à rua”, desabafou.

Na aldeia continuam a funcionar duas mercearias e uma padaria. As portas de empresas encerraram e o café da terra fechou. As conversas que aí se faziam até há pouco tempo são agora à distância e “à moda antiga”.

Helena, dona de uma das duas mercearias, é vizinha do presidente da Junta e, entre eles, o diálogo fica à distância dos quintais de casa de cada um. Mas há também quem comunique de “varanda para varanda ou até de janela para janela”.

“Aqui há sempre um vizinho com quem falar. Como nos conhecemos todos uns aos outros, damos apoio uns aos outros, se bem que agora à distância. Comunicamos entre nós cumprindo as regras de segurança”, reforçou, esperançada de que esteja “próximo o dia em que acordar de manhã e o pesadelo não tenha passado disso mesmo, um pesadelo”.

O novo coronavírus, responsável pela pandemia da covid-19, já infetou mais 480 mil pessoas em todo o mundo, das quais morreram perto de 22.000.

Depois de surgir na China, em dezembro, o surto espalhou-se por todo o mundo, o que levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a declarar uma situação de pandemia.

Em Portugal, registaram-se 60 mortes, mais 17 do que na véspera (+39,5%), e 3.544 infeções confirmadas, segundo o balanço feito hoje pela Direção-Geral da Saúde, que identificou 549 novos casos em relação a quarta-feira (+18,3%).

Portugal, onde os primeiros casos confirmados foram registados no dia 02 de março, encontra-se em estado de emergência desde as 00:00 de 19 de março e até às 23:59 de 02 de abril.

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