O presidente da Direção dos Bombeiros Voluntários de Arcos de Valdevez, Germano Amorim, defende uma reforma estrutural no sistema nacional de combate a incêndios rurais, na sequência da sucessão de ocorrências registadas nos últimos dias no Alto Minho.
Face ao cenário vivido em Arcos de Valdevez e em concelhos vizinhos, o responsável considera que o atual Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Rurais (DECIR) está desajustado à realidade atual, propondo a sua substituição por um modelo permanente e totalmente profissionalizado, ativo ao longo de todo o ano.
Segundo Germano Amorim, o caráter sazonal do dispositivo “já não responde à realidade climática, territorial e criminal” do país. “Hoje, temos múltiplos incêndios ativos. Isto não é exceção — é a nova normalidade. O risco é permanente. O apoio também tem de ser”, afirma.
O dirigente aponta que, apesar de o DECIR prever um reforço de meios entre maio e outubro — período de maior risco —, os bombeiros enfrentam ocorrências exigentes fora dessa janela, muitas vezes com recursos limitados e equipamentos sujeitos a desgaste contínuo.
Entre os fatores que, na sua perspetiva, tornam o modelo atual obsoleto, destaca as alterações climáticas, a desorganização do território florestal, a falta de cultura de prevenção e o aumento de ignições de origem criminosa. “O fogo já não tem estação. Só o dispositivo é que continua a ter”, sublinha.
Germano Amorim critica ainda a lógica de reforço apenas durante alguns meses do ano, considerando que esta abordagem “chega sempre tarde” e pode colocar em risco operacionais e populações. “À data de hoje, com vários incêndios ativos na região, continuamos sem o reforço que só chega no verão. Isto não é planeamento. É improvisação”, afirma.
Um dos pontos centrais da sua posição é a defesa da profissionalização total do sistema. O responsável sustenta que Portugal não pode continuar a depender maioritariamente do voluntariado para responder a um risco que considera permanente e crescente. “O país precisa de bombeiros profissionais, com dedicação a tempo inteiro, formação contínua e meios adequados”, disse, reconhecendo, contudo, o papel essencial dos voluntários.
Entre as medidas propostas estão a criação de equipas profissionais permanentes, o investimento contínuo em viaturas e equipamentos, uma articulação operacional reforçada entre entidades e o desenvolvimento de estratégias de prevenção que não dependam apenas da época de verão.
As declarações surgem num contexto de vários incêndios ativos na região do Alto Minho e relançam o debate sobre a eficácia do atual modelo nacional. O DECIR, coordenado pela Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, é o principal plano operacional do país para prevenir e combater incêndios rurais, mobilizando anualmente milhares de operacionais, meios aéreos e forças de segurança.
Germano Amorim admite que a sua posição possa gerar polémica, mas considera que a questão central está na ausência de decisões estruturais. “A sucessão de incêndios que estamos a viver é a prova de que o modelo atual falhou. A polémica não está nas minhas palavras. Está na inação”, concluiu.
Foto: Germano Amorim/Bombeiros Voluntários de Arcos de Valdevez










