{"id":87041,"date":"2022-12-26T15:04:44","date_gmt":"2022-12-26T15:04:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.altominho.tv\/site\/?p=87041"},"modified":"2022-12-26T15:05:07","modified_gmt":"2022-12-26T15:05:07","slug":"mega-ferreira-um-tipo-que-fez-essas-coisas-todas-na-cultura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.altominho.tv\/site\/2022\/12\/26\/mega-ferreira-um-tipo-que-fez-essas-coisas-todas-na-cultura\/","title":{"rendered":"Mega Ferreira: &#8220;Um tipo que fez essas coisas todas&#8221; na Cultura"},"content":{"rendered":"<p>O escritor e gestor cultural Ant\u00f3nio Mega Ferreira, que morreu hoje, em Lisboa, aos 73 anos, disse um dia que gostaria de ficar &#8220;conhecido na hist\u00f3ria como um tipo que fez essas coisas todas&#8221; na \u00e1rea da cultura.<\/p>\n<p>Licenciado em Direito, foi jornalista, escritor, gestor cultural, liderou a representa\u00e7\u00e3o de Portugal como pa\u00eds convidado da Feira do Livro de Frankfurt, em 1997, presidiu a candidatura de Lisboa \u00e0 Expo98, de que foi comiss\u00e1rio, foi administrador da Parque Expo, presidente do Centro Cultural de Bel\u00e9m e diretor executivo da Associa\u00e7\u00e3o M\u00fasica, Educa\u00e7\u00e3o e Cultura, que gere a Orquestra Metropolitana de Lisboa e as suas tr\u00eas escolas.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Mega Ferreira nasceu em Lisboa, em 25 de mar\u00e7o de 1949, na Mouraria, na rua Marqu\u00eas de Ponte de Lima, onde viveu a inf\u00e2ncia e a adolesc\u00eancia.<\/p>\n<p>Era filho de um comerciante, detentor de uma papelaria na Baixa lisboeta, s\u00f3cio de uma antiga loja de discos, republicano, anti-salazarista e anticlerical. Foi o pai que escolheu o nome pr\u00f3prio do autor e gestor cultural, Ant\u00f3nio Taurino, congregando, num s\u00f3, o nome do av\u00f4 paterno e o do av\u00f4 materno.<\/p>\n<p>Mega Ferreira cresceu com a m\u00fasica italiana da \u00e9poca, com a banda desenhada do Cavaleiro Andante e com a leitura da biblioteca da casa da fam\u00edlia, com a qual se iniciou em E\u00e7a de Queir\u00f3s e Camilo Castelo Branco, escritores que cedo entraram na galeria dos seus afetos, como mais tarde viria a acontecer com Jorge de Sena e os seus &#8220;Sinais de Fogo&#8221;.<\/p>\n<p>A morte do pai, em 1969, levou-o ao mercado de trabalho, primeiro como tradutor de imprensa estrangeira, no antigo Secretariado Nacional de Informa\u00e7\u00e3o do Estado Novo, depois com a op\u00e7\u00e3o pelo jornalismo, que ganhou forma com a partida para Manchester, em 1972, onde se formou.<\/p>\n<p>\u00c0 camisola vermelha do Benfica, clube de elei\u00e7\u00e3o desde a inf\u00e2ncia, juntou ent\u00e3o, num segundo plano, a camisola vermelha do Manchester United. Manteve-se leal aos dois clubes.<\/p>\n<p>No regresso a Lisboa, antes de 1974, entrou na delega\u00e7\u00e3o do Com\u00e9rcio do Funchal, jornal oposicionista dirigido por Vicente Jorge Silva (1945-2020). Viveu a revolu\u00e7\u00e3o, trabalhou nos gabinetes dos republicanos Raul Rego (1913-2002), ex-diretor do antigo jornal Rep\u00fablica, e do historiador e ensa\u00edsta Vitorino Magalh\u00e3es Godinho (1918-2011), quando foram ministros de governos provis\u00f3rios, e foi um dos nomes iniciais da reda\u00e7\u00e3o do vespertino Jornal Novo, fundado em abril de 1975.<\/p>\n<p>No percurso de Mega Ferreira, pouco depois, seguiu-se o seman\u00e1rio Expresso, onde permaneceu at\u00e9 1978, quando entrou para a Ag\u00eancia Noticiosa Portuguesa (ANOP), antecessora da ag\u00eancia Lusa, e daqui partiu para a reda\u00e7\u00e3o da RTP\/Informa\u00e7\u00e3o 2 e para o seman\u00e1rio O Jornal, j\u00e1 no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1980, onde tamb\u00e9m assumiu a chefia de reda\u00e7\u00e3o do Jornal de Letras, Artes e Ideias (JL).<\/p>\n<p>Foi nestes anos que se estreou como escritor. Primeiro com um livro sobre a pintura de Gra\u00e7a Morais, publicado pela Imprensa Nacional Casa da Moeda, depois com a sua primeira obra de fic\u00e7\u00e3o, &#8220;O Heliventilador de Resende&#8221;, surgida em 1985, na antiga Difel.<\/p>\n<p>Em 1996, deixou o jornalismo, para passar a dirigir o C\u00edrculo de Leitores e as suas edi\u00e7\u00f5es, grupo para o qual j\u00e1 criara e dirigira a revista Ler. N\u00e3o abandonou por\u00e9m a escrita para os jornais, onde se manteve como cronista, em t\u00edtulos como Di\u00e1rio de Not\u00edcias, Expresso, O Independente, P\u00fablico, Ego\u00edsta, Vis\u00e3o e JL.<\/p>\n<p>O trabalho com a Comiss\u00e3o Nacional para a Comemora\u00e7\u00e3o dos Descobrimentos Portugueses come\u00e7ou a ganhar forma em 1988, a convite do escritor e gestor Vasco Gra\u00e7a Moura (1942-2014), que a presidia. Um encontro que, pouco depois, daria origem \u00e0 candiatura de Lisboa \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o da Exposi\u00e7\u00e3o Internacional de 1998, sob o tema dos Oceanos, ideia estabelecida &#8211; como ambos relataram mais tarde, confirmando a &#8216;lenda&#8217; &#8211; durante um almo\u00e7o no Martinho da Arcada, em plena Pra\u00e7a do Com\u00e9rcio.<\/p>\n<p>O projeto ocup\u00e1-lo-ia nos anos seguintes, como presidente da comiss\u00e3o de promo\u00e7\u00e3o da candidatura, mesmo com a dire\u00e7\u00e3o da representa\u00e7\u00e3o portuguesa na Feira de Frankfurt, e mesmo com o cancro, que venceria pela primeira vez pouco antes da inaugura\u00e7\u00e3o da Expo, ocorrida em 22 de maio de 1998.<\/p>\n<p>Em junho desse ano, em entrevista \u00e0 ag\u00eancia Lusa, Mega Ferreira recordou a palavra de ordem do MRPP, que o seduzira na Faculdade de Direito, antes de 1974, para dizer que &#8220;ousar lutar, ousar vencer&#8221; seria o &#8220;grande ensinamento&#8221; deixado ao pa\u00eds pela exposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os maiores reveses do seu percurso iria enfrent\u00e1-los mais tarde, no CCB: primeiro, com a perda da Festa da M\u00fasica, por falta de dinheiro, conclu\u00edda a s\u00e9tima edi\u00e7\u00e3o, ficando para tr\u00e1s o apoio europeu e a parceria com as Folles Joun\u00e9es de Nantes, mantida desde 2000, para dar lugar aos mais contidos Dias da M\u00fasica, em 2007; pouco depois, neste mesmo ano, seria a vez da perda do Centro de Exposi\u00e7\u00f5es para a instala\u00e7\u00e3o do Museu Cole\u00e7\u00e3o Berardo, na sequ\u00eancia do acordo celebrado entre o colecionador e o Estado; por fim, a impossibilidade de concluir os novos m\u00f3dulos do centro at\u00e9 2011, &#8220;grande objetivo&#8221; que tinha imposto a si mesmo, no in\u00edcio do mandato.<\/p>\n<p>Para Mega Ferreira, a pol\u00edtica n\u00e3o o movia, nunca o moveu, n\u00e3o era um fim, era antes algo subalterno \u00e0 cultura, e n\u00e3o podia ser de outra maneira, como afirmava. &#8220;Acho que a pol\u00edtica \u00e9 um departamento da cultura&#8221;, disse \u00e0 revista Prelo, da Imprensa Nacional, em entrevista publicada no n\u00famero de julho de 2015.<\/p>\n<p>&#8220;A vis\u00e3o pol\u00edtica, as op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas devem obedecer a uma vis\u00e3o cultural&#8221;, prosseguiu. &#8220;E a vis\u00e3o cultural o que \u00e9? \u00c9 uma vis\u00e3o da sociedade. \u00c9 t\u00e3o simples como isto. (&#8230;) Mas \u00e9 uma vis\u00e3o consequente, articulada, coerente do que \u00e9 a sociedade, do que s\u00e3o as pessoas, de para onde vai a sociedade (&#8230;). Toda a op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica deve obedecer a uma vis\u00e3o cultural&#8221;.<\/p>\n<p>Exatamente o oposto da pr\u00e1tica corrente e da atualidade, deste &#8220;capitalismo no seu pior&#8221;, afirmou na mesma entrevista. &#8220;Isto \u00e9 o capitalismo na sua vers\u00e3o mais rasteira, aprendida em &#8216;MBA&#8217; de universidades neocapitalistas e neoliberais (&#8230;), ensinado como pensamento dominante&#8221;.<\/p>\n<p>Este era conceito onde encontrava os maiores riscos. \u201cA prud\u00eancia deste regime de maioria absoluta, para mim, tem as cores do medo&#8221;, disse j\u00e1 este ano, em novembro, em entrevista \u00e0 R\u00e1dio Renascen\u00e7a, quando recebeu o Grande Pr\u00e9mio de Literatura de Viagens da Associa\u00e7\u00e3o Portuguesa de Escritores.<\/p>\n<p>Nas quase tr\u00eas d\u00e9cadas como gestor, nunca deixou a escrita de lado. Somou mais de 30 livros, a maioria publicada desde 2000, entre narrativa, ensaio, poesia, biografia.<br \/>\nDepois do cruzamento de fic\u00e7\u00f5es e refer\u00eancias de &#8220;O Heliventilador de Resende&#8221;, surgiram &#8220;As Palavras Dif\u00edceis&#8221; (1991), conto ilustrado por Fernanda Fragateiro, &#8220;Os Princ\u00edpios do Fim&#8221; (1992), primeira colet\u00e2nea de poemas, e os ensaios de &#8220;Os Nomes da Europa&#8221; (1994).<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o intensificou-se a partir de 2000, com &#8220;A Borboleta de Nabokov&#8221;, primeira recolha de textos jornal\u00edsticos, quase todos dedicados a escritores, artistas e suas obras.<\/p>\n<p>Seguiram-se os universos ficcionais de &#8220;A Express\u00e3o dos Afectos&#8221; (2001), Grande Pr\u00e9mio do Conto Camilo Castelo Branco, &#8220;Amor&#8221; (2002), &#8220;As Caixas Chinesas&#8221; (2002) e &#8220;O que H\u00e1 de Voltar a Passar&#8221; (2003), a que juntou nova colet\u00e2nea de textos de imprensa, &#8220;Uma Caligrafia de Prazeres&#8221; (2003).<\/p>\n<p>Entrou no universo biogr\u00e1fico com &#8220;Retratos de Sombra&#8221; (2003) e a &#8220;Fotobiografia de Teixeira de Pascoaes&#8221; (2003), seguindo-se &#8220;Fazer pela Vida: um retrato de Fernando Pessoa, o empreendedor&#8221; (2005), &#8220;Gra\u00e7a Morais: os olhos azuis do mar&#8221; (2005), &#8220;Abel Salazar: o desenhador compulsivo&#8221; (2006) e &#8220;Por D. Quixote&#8221; (2006), a quem voltaria dez anos mais tarde (&#8220;O Essencial sobre Dom Quixote&#8221;).<\/p>\n<p>Um quadro de Matisse deu-lhe o mote para a estreia no romance, com &#8220;A Blusa Romena&#8221; (2008), e os retratos de Lisboa da artista norte-americana Amy Yoes permitiram-lhe uma hist\u00f3ria de amor, em &#8220;Lisboa Song&#8221; (2009).<\/p>\n<p>A vida do padre Jos\u00e9 Agostinho de Macedo, na viragem para o s\u00e9culo XIX, sustentou &#8220;Macedo: Uma biografia da inf\u00e2mia&#8221; (2011), no mesmo ano em que voltou a reunir, num s\u00f3 volume, v\u00e1rios &#8220;Pap\u00e9is de Jornal&#8221; (2011).<\/p>\n<p>Em &#8220;Cartas de Casanova: Lisboa 1757&#8221; (2013) imaginou um ex\u00edlio do fugitivo de Veneza. Em &#8220;Vidas Inst\u00e1veis&#8221; (2014), cruzou refer\u00eancias, de Leonardo Da Vinci a Marilyn Monroe, sob o mesmo conceito da instabilidade constante.<\/p>\n<p>O conhecimento e a multiplicidade de perspetivas, sempre presentes, prosseguiram em &#8220;Viagem \u00e0 Literatura Europeia&#8221; (2014), &#8220;Viagens pela Fic\u00e7\u00e3o Hispano-americana&#8221; (2015) e &#8220;Mais Que Mil Imagens&#8221;, t\u00edtulo publicado no in\u00edcio de 2020, que toma por refer\u00eancia obras da pintura, escultura, fotografia, arquitetura e design, que, n\u00e3o sendo necessariamente as suas preferidas, lhe &#8220;suscitaram, em diversos momentos, o desejo de escrever&#8221;.<\/p>\n<p>Em maio de 2021, publicou &#8220;Desamigados &#8211; ou como cancelar amizades sem carregar no bot\u00e3o&#8221;, avan\u00e7ando pelos universos da literatura, da hist\u00f3ria, da filosofia, ao evocar duas dezenas de personalidades, que v\u00e3o dos imperadores C\u00e9sar e Bruto aos escritores Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez e M\u00e1rio Vargas Llosa, e as suas amizades &#8220;que acabaram mal&#8221;.<\/p>\n<p>Nos derradeiros t\u00edtulos, prevalece por\u00e9m a paix\u00e3o por It\u00e1lia. \u00c9 o caso \u201cCr\u00f3nicas italianas\u201d, Grande Pr\u00e9mio de Literatura de Viagens Maria Ondina Braga 2022, da Associa\u00e7\u00e3o Portuguesa de Escritores, surgida em outubro do ano passado, pouco depois de essa paix\u00e3o lhe ter valido o Pr\u00e9mio Roma-Lisboa, atribu\u00eddo pela Funda\u00e7\u00e3o Pr\u00e9mio Roma em colabora\u00e7\u00e3o com a Embaixada de It\u00e1lia em Lisboa.<\/p>\n<p>Na altura, estavam j\u00e1 publicados os contos de &#8220;Hotel Locarno&#8221; (2015), inspirados no hotel da capital italiana, &#8220;It\u00e1lia &#8211; Pr\u00e1ticas de viagem&#8221; (2017) e a s\u00edntese poss\u00edvel de It\u00e1lia e Portugal, em &#8220;Santo Ant\u00f3nio, de Lisboa e P\u00e1dua&#8221; (2019), com fotografias de Mark Gulbenkian, a que juntou uma revisita\u00e7\u00e3o do anterior &#8220;Roma &#8211; Exerc\u00edcios de reconhecimento&#8221; (2010\/2019).<\/p>\n<p>It\u00e1lia, o pa\u00eds de Dante, autor que revisita no posf\u00e1cio da antologia &#8220;Poetas de Dante&#8221; (2021), para explicar como a escrita do autor do s\u00e9culo XIV se mant\u00e9m decisiva para o imagin\u00e1rio popular ocidental: &#8220;O Inferno come\u00e7a aqui&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;At\u00e9 morrer, todos os anos hei de ir a It\u00e1lia&#8221;, disse Mega Ferreira, em entrevista ao jornal P\u00fablico, em 07 de agosto de 2017.<\/p>\n<p>Dois meses mais tarde, ao Expresso, bem-disse a sua condi\u00e7\u00e3o de celibat\u00e1rio, por lhe ter permitido &#8220;construir uma obra liter\u00e1ria&#8221;, reconhecendo a sua &#8220;total falta de pachorra para aturar as mulheres&#8221;, depois de dois casamentos e de algumas rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A derradeira obra publicada, surgida em outubro deste ano, \u00e9 um &#8220;Roteiro Afetivo de Palavras Perdidas&#8221;, &#8220;exerc\u00edcio de introspe\u00e7\u00e3o e de mem\u00f3ria&#8221;, onde cruza viagens, epis\u00f3dios de inf\u00e2ncia, livros, sempre livros, e os seus autores.<\/p>\n<p>\u00c0 Prelo, quando da edi\u00e7\u00e3o de &#8220;Hotel Locarno&#8221;, em 2015, disse que gostaria de ficar &#8220;conhecido na hist\u00f3ria como um tipo que fez essas coisas todas&#8221;, dos jornais, aos livros, \u00e0 gest\u00e3o da Expo, do CCB e da Metropolitana, sempre com a Cultura por rumo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O escritor e gestor cultural Ant\u00f3nio Mega Ferreira, que morreu hoje, em Lisboa, aos 73 anos, disse um dia que gostaria de ficar &#8220;conhecido na hist\u00f3ria como um tipo que fez essas coisas todas&#8221; na \u00e1rea da cultura. 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