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Viana do Castelo mostra testemunhos em que traje era vestuário e pés andavam descalços

Histórias de vida contadas na primeira pessoa, registadas em vídeo, disponível no Museu do Traje de Viana do Castelo, retratam tempos em que os trajes se vestiam no dia-a-dia e os sapatos eram um luxo ao alcance de poucos.

O filme, com pouco mais de 20 minutos, que tem como protagonistas 84 idosos, dos 65 e aos 103 anos, dá a conhecer os usos, costumes, tradições e um modo de vista que, para muitos, pode parecer pertencer a um passado distante, mas está ainda bem presente na memória de quem o viveu.

Da descrição pormenorizada das vestes que Ermelinda Parente envergou em pequena, em Nogueira, apesar dos seus 103 anos, aos momentos alegres que Maria dos Anjos Martins, de 86, viveu com as amigas em São Lourenço da Montaria, na Serra d’Arga.

A “mocidade descalça” vivida, em Vila Franca, por Maria Emília Coutinho, agora com 94 anos, ao testemunho de Manuel Ramos, de 77, que fez a escola, em Afife, sem sapatos, e o de Augusto Oliveira, 78 anos, que calçou os primeiros aos 6 anos para a primeira comunhão, em Alvarães.

Uma amostra da realidade socioeconómica das freguesias rurais às suburbanas que ajuda a explicar a diversidade dos trajes populares e a evolução da etnografia de Viana do Castelo entre 1925 e 1960.

O vestuário então usado nas freguesias do concelho, feito de cotim, riscado, chita, popelina, crepe e flanela e as socas ou chancas de madeira e cabedal, “foi-se adaptando à introdução dos tecidos industriais nesse período e enleando-se nos panos caseiros de lã e linho”.

Na altura, em que os protagonistas do vídeo eram rapazes e raparigas, a roupa “mais pobrinha” era feita de “tecidos baratos” como o riscado e a chita.

Usava-se durante toda a semana e tinha de ser “poupadinha” para durar. Mal “se abria um buraco, tapava-se com um remendo”.

A blusa de pano, com folhos ou sem eles, lisa ou com pequenos apontamentos, a saia de lã, fiada, tingida e tecida em casa, era “cortada às ovelhas” da família.

As saias podiam ser de uma cor só ou às riscas, compostas pelo avental e o lenço, sempre na cabeça, “porque o padre ralhava” se se entrasse na com os cabelos descobertos na igreja.

Aos domingos, dia de missa, as vestes eram mais “finas”, confecionadas sobretudo com fazenda.

Em São Lourenço da Montaria, “se o domingo se mostrasse bom”, Maria dos Anjos Martins combinava com as “raparigas do lugar” e usavam todas as “roupas de gala” para ir à missa.

“No nosso rebanho [grupo de amigas] éramos muitas, todas amigas umas das outras. Quando íamos com a roupa de gala dizíamos que íamos asseadas”, atirou a idosa.

Bordou o seu próprio fato à lavradeira, que a mãe lhe fizera, à “luz do petróleo”, quando vinha de trabalhar.

“Nos dias em que podia ganhar, ia para a floresta e, à noite quando vinha, à luz de petróleo bordava até às 23:00. Às 04:00 já tinha de me pôr a pé para ir ganhar outra vez”, contou.

Já Maria Emília Coutinho “ia às esmolas com a roupa que tinha, melhor ou pior”, era sempre a mesma “também para usar ao domingo”.

“Os sapatos eram os que não faz falta levar ao sapateiro”, gracejou, referindo-se aos pés.
Fosse verão ou inverno, Manuel Ramos ia para a “escola descalço”, de sapatos em punho, que calçava quando entrava na sala de aula, para que não se estragassem.

Na margem direita do Vale do Neiva, em Alvarães, Augusto Oliveira teve o primeiro par de sapatos aos 6 anos, para a primeira comunhão. Os mesmos que passaram para o irmão e depois foram vendidos a dois vizinhos.

“Aqueles sapatos correram quatro pares de pés”, afirmou.

Em Darque, Maria dos Mares, de 84 anos, “andava vestida sabe Deus como” e até chegou “a usar o casaco de um primo, que já lá está no mundo da verdade, para lavar a blusa”, disse, sorrindo, desvalorizando a falta de uma muda de roupa.

Rosa Leite, de 82 anos também passou a “mocidade” em Santa Leocádia de Geraz do Lima descalça, mas lembrava-se que os pais transformaram um “saco de linhagem” em “capucho” para lhe proteger a cabeça em dias de chuva.

Na freguesia vizinha, Santa Maria, João Viana recorda-se que os rapazes usavam as chancas de madeira e cabedal, compradas em Ponte de Lima.

“Só os que tinham posses, porque os pobrezinhos não tinham nada”, frisa o idoso de 91 anos.

O filme feito de usos, costumes e tradições integra pode ser visualizado no Museu do Traje onde até final do ano está patente a exposição “Memórias de um povo: o traje popular vianense 1925-1960” e onde podem ser observadas peças de vários tipos trajes.

Recolhidos durante dois meses, os testemunhos atravessam as 27 freguesias do concelho, 40 antes da reorganização administrativa, desde o litoral sul e a ribeira de Viana do Castelo, as margens direita e esquerda do Vale do Neiva, a Serra d’Arga e Vale do Âncora e o litoral Norte.

O trabalho da Comissão da Senhora d’Agonia, tem produção de Hermenegildo Viana, realização de vídeo de Flávio Cruz e direção de fotografia de Luís Lagadouro.

O registo vai ser exibido, no domingo, na Festa do Traje, no centro cultural da cidade, um dos números da Romaria d’Agonia que começam na quinta-feira.

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