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Chieira da mordoma de Viana do Castelo continua viva mesmo sem Romaria d’Agonia

A chieira da mordoma de Viana do Castelo mantém-se viva e ressurgirá reforçada e com mais vontade de se exibir quando passar a pandemia de covid-19, que este ano deixou a devoção à Senhora d’Agonia sem romaria.

“Em cada uma de nós a chieira [termo minhoto que significa orgulho e vaidade] mantém-se viva. A alegria que nos move está guardada dentro de nós. Para o ano, ou quando for possível, sairá reforçada e ainda com mais vontade de ser demonstrada nas ruas de Viana do Castelo”, afirmou hoje à agência Lusa Sandra Araújo, de 36 anos.

Este ano, por causa do surto do novo coronavírus, apenas o dia 20 de agosto, dedicado à padroeira dos homens do mar, será celebrado presencialmente, na igreja de Nossa Senhora d’Agonia, mas com limitações.

Os restantes números dos cinco dias da Romaria d’Agonia, entre 19 e 23 de agosto, habitualmente vividos nas ruas da cidade, serão celebrados em formato digital, através da rádio, da televisão e de meios audiovisuais e tecnológicos, devido às restrições importas pela pandemia de covid-19.

O desfile da mordomia, que abre o programa das festas e que, em 2019, juntou mais de 600 mulheres, de sete países, envergando todos trajes de festa de Viana do Castelo, não é exceção.

Médica dentista, Sandra Araújo não tem dúvidas que a decisão é acertada, para travar a propagação do vírus, mas não deixa de sentir “uma tristeza imensa”.

Desfila desde os 17 anos com o traje que mandou fazer “à medida” e com o ouro da família, tradição que este ano fica interrompida.

“Sei que não me trajarei, nem ‘ourarei’ o peito ou as orelhas e que não desfilarei pelas ruas da minha cidade, mas sei que manterei a minha chieira porque não há vírus que a destrua”, desabafou, garantindo que no dia da Senhora d’ Agonia, a 20 de agosto, vestirá “a camisa regional, o colete do traje” e ‘ourará’ “as orelhas com os brincos à Rainha” e o peito com “o colar de contas”.

Em Barcelona, Espanha, a 1.200 quilómetros de distância, Catarina Azevedo exalta a mesma “paixão” pelo traje e pelo ouro da cidade onde nasceu. Este ano, tencionava participar na mordomia para celebrar os 40 anos de idade e cumprir o “sonho”, agora adiado, de desfilar com o seu próprio traje, encomendado há vários meses.

“Encomendei uma cópia de um traje que está exposto no Museu de Viana e que é o meu favorito. Não é um investimento que se faça de ânimo leve, sobretudo se se manda confecionar algo absolutamente artesanal e cumprindo todos os requisitos da tradição”, explicou.

O traje assume-se como um símbolo tradicional da região, nas suas várias formas, consoante a ocasião e o estatuto da mulher. Em linho e com várias cores características, onde sobressai o vermelho e o preto, foi utilizado até há mais de 120 anos pelas raparigas das aldeias em redor da cidade de Viana do Castelo.

A viver em Barcelona há 17 anos, a consultora de recursos humanos começou por participar nos carros de crianças que integram o cortejo etnográfico das festas.

A partir dos 15 anos Catarina Azevedo passou, “de forma mais consciente e por vontade própria”, a desfilar, primeiro com os trajes emprestados pelas amigas e mais tarde com os fatos dos grupos folclóricos que integrou.

“Fui sempre uma adepta fervorosa de todo o programa das festas. Mesmo à distância sigo de perto o concurso da elaboração do cartaz oficial e tenho imensa bibliografia dedicada às festas, aos trajes, ao museu, ao ouro tradicional. Quando me perguntam qual é a minha religião respondo sempre: são as Festas d’Agonia”, atirou.

Aos 76 anos, Rosa Caetano “nunca” pensou que as festas da sua cidade pudessem ser canceladas.

“Estou muito triste. Nunca pensei na minha vida, com os anos tenho, não sentir as festas. Estava cheia de ideias e sonhos para este ano e, de repente, esses sonhos foram-se. Levo 64 anos a participar com os grupos folclóricos e no desfile da mordomia já perdi a conta”, desabafou a antiga costureira.

A coleção de fatos tradicionais de Rosa Caetano conta com cerca de meia centena de exemplares. Uns mandados fazer, outros feitos pelas suas próprias mãos, bordados a vidrilho, como tanto gosta. Todos os anos os empresta ou aluga para os diversos números das Festas d’Agonia ou para outras romarias das freguesias do concelho.

Os trajes de mordoma, de ‘domingar’ ou de lavradeira, são alguns dos exemplares do “tesouro” que Rosa Caetano guarda, todos “devidamente pendurados” em armários que destinou para o efeito. Este ano, pela primeira vez, não vão sair semanas antes da romaria para serem arejados e poderem “brilhar” nos corpos das mordomas.

“Este ano, ficam guardados no armário, mas tenho esperança de que, no próximo ano, vão ser usados pelas mordomas de Viana do Castelo que sairão para as ruas com mais vontade, com todo o seu esplendor”, disse.

O desfile da mordomia é o momento em que os diferentes trajes das freguesias de Viana se encontram e mostram, de uma só vez à cidade.

Uma tradição cada vez mais enraizada entre as jovens e mulheres de Viana do Castelo e que junta várias gerações, num quadro único e colorido pelos vermelhos, verdes e amarelos dos típicos e garridos trajes das diferentes freguesias.

Não faltam também os fatos de noiva mais sóbrios, de cor preta. Neste número algumas das mulheres chegam a carregar dezenas de quilos de ouro, reunindo as peças de famílias e amigos num único peito, simbolizando a chieira e outrora o poder financeiro das famílias.

A nível global, segundo um balanço da agência de notícias AFP, a pandemia de covid-19 já provocou mais de 283 mil mortos e infetou mais de 4,1 milhões de pessoas em 195 países e territórios. 

Em Portugal, morreram 1.144 pessoas das 27.679 confirmadas como infetadas, e há 2.549 casos recuperados, de acordo com a Direção-Geral da Saúde.

A doença é transmitida por um novo coronavírus detetado no final de dezembro, em Wuhan, uma cidade do centro da China.